Dismorfia espiritual
- Pablo Ale, Licencié en Théologie et en Communication Sociale
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O sábio pedido de Davi no Salmo 51 para obter a verdadeira beleza.
Não era que João não pudesse deixar de pensar em si mesmo. O que ele não conseguia era deixar de pensar na imagem que projetava de si mesmo. Assim, ao se concentrar em sua aparência, notava que aquela parte do seu corpo lhe desagradava profundamente. Quando, pela vigésima vez no dia, olhava seu rosto no espelho, sua angústia aumentava.
João sofria de «dismorfia»; ou seja, a alteração perceptual do padrão morfológico normal de uma parte do corpo. As «imperfeições» nas quais se concentram quem tem essa patologia são coisas que outros dificilmente notam. Mas eles as exageram e tudo parece pior em sua mente. Por isso, alguns nem sequer saem de suas casas e, se o fazem, recorrem a maquiagens excessivas, chapéus, roupas largas para se cobrir, etc. Além disso, as ansiedades e as inseguranças estão sempre à espreita. Na maioria dos casos, a solução para esse problema está em um tratamento psicológico.
Dismorfia espiritual
No entanto, há uma classe de dismorfia que poderíamos chamar de «espiritual», que é muito mais perigosa. Diferente da outra, o que não gostamos é real e mortal. Davi sofria disso no Salmo 32:3: «Enquanto me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu gemido durante todo o dia». E é que no Salmo 51 ele não conseguia deixar de pensar em seu pecado. Seu coração estava manchado. O prazer fugaz de um relacionamento sexual proibido com Bate-Seba já não existia. O que restava eram os despojos mortais do fiel soldado Urias e da criança inocente fruto daquele relacionamento adúltero. Todos os pecados deixam consequências; mas as de alguns são mais complicadas de suportar do que as de outros.
Acuado pela culpa que conduz ao arrependimento, Davi escreve o catártico Salmo 51. Este registro confessional tem sustentado e animado milhares de cristãos ao longo da história que também desceram às profundezas do pecado e, dali, foram resgatados pela graça divina. Analisemos esses esperançosos 19 versículos em três partes:
1-Pecado confessado, pecado perdoado (versículos 1 a 6)
Poucas vezes na Bíblia se registra uma oração tão sincera e poética. Não são apenas belas palavras; também o são as súplicas de um pecador que busca o verdadeiro arrependimento com uma confissão direta e clara, sem autojustificação nem desculpas. Ele não culpa as circunstâncias, nem seu temperamento, nem as pressões da sociedade. Apenas exclama: «Deus, tem compaixão de mim, conforme a tua benignidade» (Salmo 51:1).
O perdão não opera por nenhum mérito humano, mas pela misericórdia de Deus. Graças a ele pode ser extirpado este maligno horror da «dismorfia espiritual» com uma tríplice ação: «apaga as minhas transgressões», «lava-me... da minha maldade» e «purifica-me do meu pecado» (Sl. 51:1, 2). «Apagar», em hebraico, é a mesma palavra –usada como súplica– que se usa para apagar a escrita de um livro (Êxodo 32:32; Números 5:23).
2-Pecado confessado, restauração iniciada (versículos 7 a 12)
Davi suplicou para que Deus fizesse uma obra de limpeza total em virtude do sacrifício expiatório de um substituto. O hissopo é uma clara referência ao Santuário e era usado para aplicar o sangue do cordeiro pascal (Êxodo 12:22) e para aspergir a água purificadora do sacerdote (Números 19:18). Nem por um momento Davi pensou que poderia se limpar sozinho. Assim, inicia o caminho da pureza (da qual Deus nos chama a ser exemplo em 1 Timóteo 4:12) com o maior tesouro que um ser humano pode ter: um coração renovado (sobre o qual se alicerçam a felicidade e a santidade, segundo Mateus 5:8 e Salmo 51:8 e 12). A oração de Davi deveria ser a nossa: «Senhor, cria em mim um coração puro» (Salmo 51:10).
3-Pecado confessado, missão em marcha (versículos 13 a 19)
As transformações de Deus são surpreendentes. A amarga experiência de uma categórica derrota espiritual agora poderia ser convertida em uma oportunidade de testemunho. Davi estava feliz em ensinar outros através de sua vivência para que os pecadores voltassem ao bom caminho. Aquele que havia exercido uma fé sólida para derrotar Golias e um domínio próprio surpreendente para apenas cortar a orla do manto de Saul, agora havia fracassado como homem, esposo, pai e líder. Mas Deus lhe concedeu outra oportunidade.
Por quê? Porque, quando Jesus nos olha, exerce uma espécie de «dismorfia», mas positiva, já que não nos vê como somos, mas como podemos vir a ser. Sem medos, podemos humilhar nossa alma solicitando o perdão para depois erguer nossa cabeça e contar as grandes coisas que Deus tem feito por nós.
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